A ASCENSÃO DOS TÉCNICOS ESTRANGEIROS NO BRASIL

Texto escrito por Thiago Ribeiro Freitas

Os treinadores estrangeiros estão em alta no cenário do futebol brasileiro, atualmente, dos 20 clubes que disputam a série A do campeonato nacional, 05 deles possuem técnicos que não são brasileiros (25%), sendo eles Athlético – PR, Internacional, Palmeiras, Santos e São Paulo, apesar desse número ainda parecer relativamente baixo, existe um crescimento na quantidade de comandantes estrangeiros nos anos recentes e o que chama a atenção é o sucesso de alguns de seus trabalhos no Brasil.
Entre os principais desempenhos, destaca-se o Português Jorge Jesus no Flamengo (2019 – 2020), time onde foi campeão do Brasileirão e da Copa Libertadores em 2019 e venceu ainda a Taça Guanabara, Campeonato Carioca, Supercopa do Brasil e Recopa Sul-Americana em 2020.
Outra passagem de muito sucesso em nosso país, é a de outro Português, o treinador Abel Ferreira que chegou ao Palmeiras no ano passado e permanece em atividade no clube até o presente momento, conquistou a Libertadores da América e a Copa do Brasil em 2020, lembremos que apesar das duas competições terem se encerrado em 2021, ambas são válidas pelo calendário da temporada do ano passado.
Nas duas passagens citadas acima, os técnicos não eram figuras muito conhecidas no futebol Brasileiro quando foram trazidos, e como todo nome pouco conhecido chegaram sob olhares de certa desconfiança, apesar disso desenvolveram grandes trabalhos, implantando suas ideias de jogo e ganhando títulos de grande relevância.
Claro que a atuação de treinadores estrangeiros em times do Brasil não é novidade, todavia nosso futebol parece ter iniciado um novo ciclo no que diz respeito ao tema, ciclo este que pode ser bem duradouro e acrescentar coisas boas ao futebol nacional.
Evidente também, que nem todas as últimas passagens de comandantes de outros países foram boas experiências, o Argentino Jorge Sampaoli no Atlético – MG por exemplo, exigiu inúmeros reforços, fez a diretoria do clube gastar muito dinheiro na compra de jogadores e conseguiu levar o clube apenas ao terceiro lugar no Brasileirão de 2020, o que pode ser considerado como uma performance decepcionante, tendo em vista o alto investimento e que seu time durante boa parte da temporada disputou apenas uma competição.
Além deste caso, podemos mencionar ainda outras experiências recentes com técnicos estrangeiros, que com toda certeza não deixaram saudades nos clubes brasileiros onde passaram, como o Espanhol Domènec Torrent no Flamengo, o Venezuelano Rafael Dudamel no Atlético – MG e os Portugueses Jesualdo Ferreira no Santos e Ricardo Sá Pinto no Vasco da Gama.
Podemos notar que a procura por treinadores de outras nacionalidades aumentou muito depois do grande trabalho entregue por Jorge Jesus no Flamengo, e isso ocorreu principalmente pelas ótimas ideias de jogo apresentadas e que deram muito certo, além da intensidade e organização tática demonstradas. Essas mesmas qualidades também podem ser encontradas no atual Palmeiras dirigido por Abel Ferreira e pelo Santos de 2019, comandado por Sampaoli.
Todavia, o que preocupa no crescimento dessa procura, é a falta de critério de alguns dirigentes no momento em que garimpam o mercado para contratar esses treinadores para seus clubes.
É necessário que se tenha a consciência de que nem todo técnico de outro país conseguirá entregar um bom trabalho atuando no Brasil, e isso se explica por vários fatores, o novo comandante pode ter propostas de jogo insuficientes, pode ter um padrão de jogo que não se encaixa ao perfil do clube, pode não ter todo o talento que se espera ou demorar para se adaptar à nossa cultura futebolística e isso tudo sem falar na falta de tempo para obter bons resultados, fator que é marcante negativamente no futebol brasileiro.
O que não podemos fazer, é implantar um novo modismo em nosso futebol, onde se deposita grandes expectativas em um profissional quase que exclusivamente por ele ser de outro país, situação pela qual o Santos passou depois da saída de Sampaoli no final de 2019, na época a diretoria do clube decidiu que o substituto do Argentino teria que ser um novamente um estrangeiro e com vocação ofensiva.
A busca resultou na contratação de Jesualdo Ferreira (nacionalidade portuguesa) e o resultado foi desanimador, o técnico foi demitido após 15 jogos no comando do clube, somando 48,8% de aproveitamento, com um retrospecto de 17 gols marcados e 16 sofridos.
No caso em questão, a diretoria do Santos se preocupou muito com a nacionalidade do futuro treinador, e não deu a devida importância a outros fatores como salários atrasados, atletas buscando rescisão contratual e falta de reposição de jogadores que deixaram o clube.
Este mesmo erro também já foi cometido por outras equipes brasileiras, Domènec Torrent foi contratado pelo Flamengo e o resultado foi parecido, podemos concluir que a contratação se mostrou descuidada, pois se pensou muito no sucesso de seu antecessor e não se aprofundaram na carreira e estilo de jogo do profissional contratado.
Outro ponto a se destacar, é que não podemos desvalorizar o trabalho dos treinadores brasileiros em detrimento dos técnicos estrangeiros, afinal estes trouxeram importantes contribuições para a nossa realidade, as quais devem ser abraçadas por todos nós, apesar disso eles não reinventaram o futebol que já era jogado aqui.
Por fim, o ideal mesmo é que quando optarem por trazer um técnico de fora do país, é preciso que o façam com critérios bem definidos, principalmente em relação à filosofia de jogo, mas também é imprescindível que a partir disso nós brasileiros tenhamos a capacidade de conciliar o que já vinha sido feito de bom em nosso território às excelentes ideias trazidas de fora do país por estes profissionais, afinal o futebol é uma comunidade mundial, onde todos os técnicos podem contribuir significativamente, sejam eles europeus, sul-americanos, africanos ou asiáticos.

** A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Resenha da Torcida

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