Texto escrito por Antonio M. Gonçalves
Um número emblemático, uma estampa que, quando é visto entrando em campo, um extraterrestre, se ali estiver para assistir ao jogo, vai pensar “esse aí deve ser o humano que melhor joga nesse time”. Mais do que saudosismo, remeter as lembranças aos “camisas dez” do passado e compararmos com o que possuímos desfilando pelos campos atualmente, é meio complicado não termos uma pontinha de vontade de voltar ao tempo. Vale ressaltar que houveram grandes craques que “pensavam” no meio-campo, usando outros números. Por isso, podemos expandir o termo “camisa dez” para muitos “cincos”, “oitos”, “setes” e até “onzes” da vida pelo mundo a fora.
Com a modernidade, veio a popularização da intensidade no linguajar dos professores, dos misters como os europeus se referem, o que tornou o jogo mais pegado, mais rápido, com ocupação de espaços e atuações em blocos em 1/3 de campo. Nisso, tornou-se reduzido o espaço para os “pensadores magistrais”, logo, eles foram praticamente extintos, pois a exigência atual pede-se mais meros passadores de bola. Os artistas da bola que usavam ou não a 10, que eram atrevidos e criativos, tiveram a última safra, nos atendo apenas as terras tupiniquins, oriunda dos anos 90 e tendo como seus principais expoentes Djalminha, Alex, Marcelinho Carioca. Curiosamente, nenhum fez carreira prolongada, cada um por um motivo especifico ou não, na seleção brasileira, o que é uma injustiça histórica. Era cada “tapa” desconcertante, cada lançamento que parecia ter sido feito com as mãos, que muitas vezes demonstrava que não era força, era jeito. Às vezes não se corria mais que a bola, mas a bola girava parecendo em slow motion com o defensor com cara de espanto por não conseguir interceptar aquela jogada que parecia tão fácil. Era a magia do futebol em seu estado bruto até em lances de “quase gol”, daqueles que ecoavam aqueles gritos de “uhhhh”, no sentido de “uauuu… que lance!”. Esses abusados tinham, praticamente sempre, algum grande parceiro metido a driblador que costumeiramente desfilava em alta velocidade, hora pelas beiradas do campo, hora cortando por dentro fazendo o tal do “facão”. Era comum ver, por exemplo, um amante do bom futebol, dar um sorriso maroto ao ver um Djalminha, após algumas tentativas frustradas, é verdade, dar uma bela esticada na esquerda para um Rivaldo partir pra cima da marcação e finalizar com um golaço. E o que falar de um Marcelinho Carioca metendo uma bola cheia de efeito pra um Edilson dominar bonito e finalizar em uma grande jogada? Um pouco tempo atrás, tinha um tal de Raí municiando um tal de Muller, o deixando cara a cara com o goleiro adversário. Anos depois, vimos um ano mágico de Paulo Henrique Ganso brincando com Neymar e cia limitada, mostrando que há sim espaço para jogadores dessa pegada.
Talvez, esse último, fez com que muitos treinadores e formadores de opinião, ficassem com um pé atrás com esse tipo de jogador no futebol atual. Mas o fato é que, lamentavelmente, o Ganso teve a carreira prejudicada por conta de uma séria cirurgia no joelho, deixando-o notoriamente mais lento. Também, é importante frisar que não há tanto tempo pra se pensar em campo. Mas explica isso pra um Djalminha, que se não podia ao menos dominar a bola, ele resolvia com um passe de primeira mesmo. Simples assim! O fato é que a tal da modernidade impacta diretamente e imediatamente nas categorias de base. É muito comum vermos garotos altamente técnicos, com passes calibrados, com visão de jogo acima da média, serem preteridos a jovens medianos, mas que possuem a tal entrega na marcação e, quando possuem a bola, parecem mais estarem brincando de “batata quente”, por tão rápido quererem se livrar da bola para evitar berros acalorados dos seus treinadores na beirada do campo. Se um menino pegar a bola, der um drible, já se vislumbra olhares atravessados dos formadores das categorias de base, mas se esse mesmo menino já pega a bola e faz um passe preciosamente correto, mas de lado, sem a tentativa de fazer algo diferente, sua estatística será melhor do que a do menino que deu um drible pra clarear um jogada e meteu uma bola em profundidade para um companheiro avançado que foi travado pela defesa adversária.
Hoje, limita-se a criatividade já nas categorias de base. É cada vez mais raro, pra não dizer impossível de surgirem novos “Djalminhas”, “Alexs”, “Marcelinhos”, “Raís”, isso se apenas usarmos como referências jogadores de tempos mais recentes. Mas surgem aos montes, as revelações que possuem um altíssimo percentual de acerto de passes… de lado. Mas não seria melhor tentar acertar 5 passes verticais, na expectativa de “quebrar” uma linha adversária ao melhor do que dar 10 passes laterais certeiros que não dão em nada? A estatística é sim algo a ser levado em consideração no futebol moderno, mas desde que com moderação, pois está ficando cada vez mais chato assistir jogos intensos, com elevado número de passes corretos, mas sem criatividade. Mas dá-lhe 70% de posse de bola, infelizmente.
** A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Resenha da Torcida
Deixe um comentário