A ASCENSÃO DO FUTEBOL TURCO NOS ANOS 2000 (1º PARTE)

Texto por Gustavo Xavier

Quando falamos de futebol turco, é bem provável que venha a cabeça o penta da Seleção Brasileira na Copa da Coréia do Sul e Japão em 2002, aquela cena dos turcos correndo atrás do Denílson, os dois jogos duríssimos contra a Seleção Turca, o primeiro ainda na fase de grupos e o segundo na surpreendente Semifinal, com o famoso gol de bico (eu diria um golaço) do Ronaldo, O Fenômeno, contra o goleirão turco Rüstü, que ia para as partidas “a caráter”, já que pintava o rosto. Você também pode associar o futebol turco com a torcida barulhenta, apaixonada e fanática, além dos três gigantes: Besiktas, Fenerbahçe e Galatasaray.

Para entendermos todo esse contexto, precisamos voltar um pouco no tempo, próximo do começo dos anos 2000.

Após o fracasso em sua primeira Eurocopa da história, na Inglaterra em 1996, a Seleção Turca – comandada pela figura turca, Fatih Terim – que já contava com jogadores como Rüstü Reçber, Alpay Özalan, Bülent Korkmaz e Hakan Sükür – maior artilheiro da história da Turquia, do Campeonato Turco e considerado por muitos o maior turco da história – no elenco, encarava ali o que eu chamaria de divisor de águas, já que na edição de 2000, na Bélgica e Países Baixos, a realidade seria completamente outra. Na Euro 96, os turcos encararam na fase de grupos a Croácia (do lendário Davor Suker, artilheiro da Copa de 1998 na França), a Dinamarca (dos irmãos Laudrup) e Portugal (de Luís Figo e Rui Costa). O saldo foi totalmente negativo com três derrotas e nenhum gol marcado.

Já na edição de 2000 as coisas começaram a melhorar antes mesmo do início da Euro, quando o Galatasaray Spor Kulübü – clube de Istambul fundado em 1905 – foi campeão da UEFA Cup (atual Europa League) sob o comando do lendário técnico turco Fatih Terim (atualmente no próprio Galatasaray), diante do time espetacular do Arsenal (o Gala passou pelo Bologna da Itália, Borussia Dortmund da Alemanha, Mallorca da Espanha e Leeds United da Inglaterra), na edição de 1999/2000. O título veio de forma dramática nos pênaltis, cena bastante comum para o então goleiro do time turco na época, simplesmente

Cláudio Taffarel. Além do ídolo do Tetra da Seleção Brasileira na Copa dos Estados Unidos em 1994, o elenco contava com um craque histórico que também brilhou em 94, o genial romeno Gheorghe Hagi, o camisa 10. Já no elenco dos Gunners tinham nomes como os campeões da Copa do Mundo de 1998, os craques franceses Patrick Vieira e Thierry Henry, que foram campeões em seu próprio país. A dupla também se sagraria campeã da Euro 2000. O gênio holandês, Dennis Bergkamp, também estava no elenco do clube inglês e foi outro que brilhou nas Copas de 94 e 98.

Vale lembrar que a temporada 1999/2000 foi simplesmente espetacular para o Galatasaray. A equipe de Istambul faturou a tríplice coroa ao vencer a liga, a copa e o título europeu citado. Uma cena marcante daquela temporada do Gala foi a do defensor histórico Büllent, que deslocou o ombro na final diante do Arsenal e mesmo assim quis continuar em campo, jogando enfaixado o restante da partida decisiva (representando toda raça turca).

Partindo agora para a Euro 2000, o desempenho dos turcos, comandados pelo técnico turco Mustafa Denizli (que comandou Galatasaray, Fenerbahçe e Besiktas) foi bastante equilibrado. Na fase de grupos estrearam perdendo para a Itália (que tinha nomes como Paolo Maldini, Alessandro Del Piero e Francesco Totti; Terminariam com o vice-campeonato), empataram com a Suécia (de Henrik Larsson e Freddie Ljungberg) e venceram a Bélgica (dos irmãos Mpenza e do craque Luc Nilis, aquele mesmo, escolhido por Ronaldo Fenômeno como o melhor companheiro de sua carreira, na época do PSV). Com a primeira colocação dos italianos, o segundo lugar foi suficiente para os turcos passarem de fase, no entanto, encarariam Portugal, os rivais de 1996. Novamente a Seleção Portuguesa de Figo, Rui Costa e muitos outros ótimos jogadores, acabariam com o sonho turco.

O elenco da Turquia já contava com uma mescla de experiência da Euro anterior e novos talentos, que provariam seus valores no Mundial de 2002. Nomes como o goleiro Rüstü, os meio campistas Tugay Kerimoglu (que marcaria época na Inglaterra), Ümit Davala (aquele mesmo do moicano em 2002) e Emre Belözoglu, além dos atacantes Hakan Sükür, Ümit Karan e Arif Erdem.

Após a Euro, o Galatasaray, agora comandado pelo romeno Mircea Lucescu (aquele mesmo de longa passagem pelo Shakhtar Donetsk da Ucrânia) voltaria a chocar a Europa, dessa vez ao vencer o Real Madrid da Espanha (atual campeão da UEFA Champions League na época) na prorrogação da Supercopa Europeia ainda em 2000. Com uma atuação decisiva de Mário Jardel (sim, ele mesmo! O brasileiro que colecionou artilharias e títulos ao longo da carreira, além das duas chuteiras de ouro), autor dos dois gols, o clube turco ergueria mais uma taça após o apito final. Raúl Gonzalez, o ídolo merengue, guardou o único tento dos espanhóis. Outros dois brasileiros também foram titulares do Gala na final. Taffarel e Capone, além dos romenos Hagi e Popescu, que foram verdadeiras lendas no clube.

O título da Supercopa já era o início da temporada 2000/2001, que também seria bem importante pro Galatasaray, que chegaria as Quartas de Final daquela edição da UCL. A fase de grupos, ainda contou com outro representante turco, o grande rival Besiktas. No entanto, os rivais de Istambul acabaram amargando a lanterna de um grupo complicado que contava com Barcelona da Espanha, Milan da Itália e Leeds da Inglaterra, esse último que ficou muito marcado pela rivalidade com o Galatasaray, que começou na campanha do título europeu do Gala, na semifinal em 2000, episódio marcado por um triste e trágico embate entre os torcedores turcos e ingleses em Istambul. A equipe turca somou 4 pontos (1 vitória, 1 empate e 4 derrotas), porém a única vitória foi bastante categórica, 3×0 diante do Barcelona em solo turco.

Durante a primeira fase de grupos, o Galatasaray enfrentou em seu grupo o Monaco do Principado, o Rangers da Escócia e o Sturm Graz da Áustria. Os turcos somaram 8 pontos (2 vitórias, 2 empates e 2 derrotas), passando em segundo para a fase de grupos seguinte. Os austríacos passaram em primeiro na ocasião. As duas vitórias do Gala foram em casa, diante de Monaco e Rangers.

Na outra fase de grupos o Galatasaray encarou adversários mais complicados ainda. O Deportivo de La Coruña da Espanha (que estava no seu auge e tinha vencido a La Liga anterior), o gigante Milan da Itália e o Paris Saint-Germain “PSG” da França, que contava com um elenco qualificado. O saldo foi bastante positivo com 10 pontos conquistados (3 vitórias, 1 empate e 2 derrotas) e a segunda colocação garantida. Os espanhóis passaram em primeiro. O aproveitamento dos turcos em casa foi de 100% nessa fase. O próximo passo seria enfrentar um velho/novo conhecido, o Real Madrid.

A primeira partida realizada na Turquia foi surpreendente. O Real abriu 2×0 no marcador com gols de Iván Helguera e Makélélé, no entanto o Gala virou de forma espetacular com gols de Davala, Hasan Sas (o carequinha perigoso de 2002) e Jardel (ele ataca novamente). 3×2 ao término do jogo, a decisão seria em solo espanhol.

Precisando do resultado, os merengues logo abriram o marcador com Raúl, que depois faria mais um. O segundo foi anotado por Helguera, novamente. 5×3 pro Madrid no placar agregado e gosto amargo para os turcos, era o troco dos merengues, que haviam sucumbido na Supercopa Europeia. Pra completar, o título da Süper Lig (Campeonato Turco) daquela temporada ficaria com outro rival, mais um de Istambul, o Fenerbahçe. O Galatasaray ficou com o vice.

** A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a opinião do Resenha da Torcida

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